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SEGUNDA-FEIRA — CADERNO CUIDADO

O som que fica depois que a plateia vai embora

Depois do último acorde, para muitos músicos um som continua tocando sozinho — e quase ninguém pergunta o que isso custa por dentro.

Por Redação Maestro · 31 de agosto de 2026 · Foto: acervo Maestro

Capa da matéria O som que fica depois que a plateia vai embora
O som que fica depois que a plateia vai embora

Tem um som que segue tocando mesmo depois que o show acaba. Não é força de expressão nem exagero poético: é um zumbido, um apito fino, às vezes um chiado constante que fica ali, entre o ouvido e o silêncio, horas depois de o palco esvaziar e as luzes se apagarem. Quem vive de música conhece essa sensação, ainda que raramente fale sobre ela em voz alta.

Uma revisão publicada este ano na revista científica Otolaryngology–Head and Neck Surgery, reunindo dados de mais de sessenta estudos e cerca de vinte e oito mil músicos espalhados por vinte e um países, mostrou que o zumbido no ouvido atinge algo perto de quatro em cada dez músicos — mais do triplo do que se observa em quem não trabalha com música. A perda auditiva aparece em cerca de um quarto dos casos analisados, mais que o dobro da população em geral, e a hiperacusia, aquela sensibilidade exagerada a sons corriqueiros do dia a dia, chega perto de quatro em cada dez também. Os próprios pesquisadores fazem questão de lembrar que boa parte desses números vem de relato pessoal, não de exame clínico — o que sugere que a realidade pode ser ainda maior do que o que os dados conseguem captar.

O que esses números não contam sozinhos é o peso de carregar um corpo que parece nunca desligar de vez. Para quem construiu a vida em torno do som — ouvir bem é ferramenta de trabalho, é identidade, é parte de como a pessoa se relaciona com o próprio ofício — a possibilidade de o ouvido estar se desgastando aos poucos mexe com algo mais fundo do que uma questão física. Uma pesquisa conduzida com músicos de rock na Noruega, há alguns anos, encontrou justamente esse cruzamento: entre quem convivia com zumbido persistente, os sinais de ansiedade e depressão apareciam de forma visivelmente mais frequente. E faz sentido — é difícil relaxar de verdade quando o próprio corpo insiste em fazer barulho por dentro, principalmente à noite, quando tudo ao redor já está quieto.

Tem também a questão do sono, tratada como detalhe menor na rotina de quem toca de noite, ensaia de madrugada, viaja em fusos trocados e volta para casa com os ouvidos ainda "ligados" horas depois do último acorde. Descansar de verdade exige silêncio, e para muitos músicos o silêncio virou artigo raro — não só porque a agenda não permite, mas porque, de forma bem literal, o corpo segue produzindo som mesmo quando não há nenhuma plateia para ouvir.

Não existe aqui uma lição fácil, um protetor auricular que resolve tudo ou um conselho que caiba em uma frase de efeito. O que existe é um convite para levar a sério algo que a cultura da música, historicamente, trata como preço inevitável a pagar — como se doer fizesse parte do ofício e reclamar fosse sinal de fraqueza. Não precisa ser assim. Cuidar do ouvido é, também, cuidar da cabeça, e as duas coisas estão mais entrelaçadas do que costumamos admitir.

É com esse espírito que o Maestro pensou o módulo de Cuidado, disponível no plano Premium. O questionário não pergunta só "como você está" — pergunta como anda o sono, o esgotamento, o isolamento, a relação com o descanso, porque o objetivo nunca foi entregar uma nota bonita e reconfortante, e sim um retrato honesto, que pode cair tanto quanto subir. Existe um primeiro apoio guiado por inteligência artificial e, quando faz sentido, encaminhamento para uma psicóloga de verdade — porque quem vive de música lida com uma profissão visceral, das que deixam a pele fina, e às vezes o que resolve não é mais um aplicativo, é alguém do outro lado ouvindo com atenção.

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