QUINTA-FEIRA — CADERNO MERCADO
366 festivais e o risco de apostar tudo num calendário só
O número de festivais no Brasil cresceu, mas os cancelamentos também — e isso muda a conta de quem depende só desse circuito para viver.

O Brasil realizou 366 festivais de música no último ciclo mapeado pelo estudo Mapa dos Festivais, um crescimento de mais de 20% em relação a 2023. É um número que, à primeira vista, conta uma história só de expansão: mais palcos, mais datas, mais chances de tocar para plateias grandes. Ivan Ferraro, presidente da ABRAFIN, a associação que reúne mais de 180 festivais independentes pelo país, confirma que a cena cresceu em escala. Mas ele também aponta um efeito colateral incômodo desse crescimento: a nova indústria da música, segundo ele, reproduz práticas antigas de concentração, e o aumento de cachês vinculados a festivais patrocinados por marcas grandes vem pressionando o orçamento de festivais menores, restringindo espaço para line-ups mais diversos.
Ao mesmo tempo, o relatório global de música ao vivo da Luminate para 2026 mostra o outro lado dessa moeda: apenas 17% dos festivais europeus conseguiram esgotar ingressos em 2025, ante 29% em 2022, e 107 festivais foram cancelados no mundo todo naquele ano, com mais 33 cancelamentos já registrados no início de 2026. O padrão não é exclusivamente brasileiro, mas ele ilustra algo que vale para qualquer músico que constrói a própria agenda em torno de datas de festival: esse é um mercado que está crescendo em número de eventos, mas também ficando mais instável em cada evento individual. Mais opções não significa, automaticamente, mais segurança.
Isso cria uma armadilha sutil para quem toca com regularidade nesse circuito. Festival é ótimo para visibilidade — plateia grande, curadoria que valida seu nome, possibilidade de abrir portas para outros convites. Mas ele também segue um calendário sazonal, concentrado em certas épocas do ano, e depende de patrocínio, verba pública ou venda de ingresso que pode simplesmente não se confirmar, cancelando a data com meses ou semanas de antecedência. Um músico cuja agenda inteira gira em torno desse tipo de contratação está, na prática, apostando o ano inteiro numa fonte de renda que tem taxa de cancelamento crescente e ciclo de contratação concentrado em poucos meses.
A saída não é abandonar festivais — eles continuam sendo uma das formas mais eficientes de crescer nome e rede de contato. A saída é não deixar que sejam a única linha do orçamento. Isso significa cultivar, em paralelo, contratantes de eventos privados, corporativos, casas menores e recorrentes — tipos de contratação que não dependem de curadoria de festival nem de patrocínio de marca para acontecer, e que costumam ser exatamente os contatos que um músico tende a esquecer de manter vivos depois que o show termina.
É nesse ponto que o histórico de quem já te contratou vira patrimônio de carreira, não só lembrança. Um produtor de festival que te chamou uma vez, um curador que gostou do seu set, um contratante de evento privado que fechou com você no meio da correria de uma turnê — são nomes que, se organizados, podem ser reabertos quando o calendário de festivais ficar mais incerto. É esse tipo de gestão que o Maestro construiu dentro do pilar Mercado do Índice TRÍADE: um CRM feito para músicos reativarem contratantes antigos, para que a instabilidade de um circuito não vire instabilidade da carreira inteira.